domingo, 14 de novembro de 2010

Pesquisa realizada com os funcionários e algumas crianças da ONG


Os funcionários da ONG foram tão proativos que nos motivaram a realizar até uma entrevista que segue abaixo. 

Entrevista realizada com a diretora da ONG.

Nome: Juliana Paula Altierri
Inicio da Gestão: 2005
Grau de Escolaridade: Pedagogia – Completa

1.     Por que você aceitou o cargo de gestora da ONG Expansão Ágape?

Aceitei o cardo de gestora da associação expansão Ágape porque conhecia a idoneidade do trabalho, por anteriormente já ter trabalhado como professora voluntária e pelo trabalho ter finalidade social.

2.     Como era a ONG quando você assumiu? Em relação a público alvo, recurso e infra-estrutura?


Quando assumi a Associação, as pessoas que trabalhavam na Instituição eram todas voluntárias e recebiam uma ajuda de custo devido a isto, tínhamos muita rotatividade de profissionais, o que na maioria das vezes, dificultava o nosso objetivo; em relação ao público alvo, sempre teve como objetivo, alcançar as crianças de baixa renda.
Quanto a Instituição em si, precisava de uma pedagoga, para poder ajustar a parte pedagógica, para melhorar o desenvolvimento dos alunos e organização da parte interna e externa das salas de aulas.

3.     Houve alguma mudança considerável em relação ao bairro/comunidade?

Sem duvida nenhuma houve uma grande mudança no bairro devido a Instituição, pois em 20 de agosto, completamos 20 anos e no decorrer deste período muitas crianças foram atendidas em período integral, assim ajudando os familiares que trabalhavam em período integral e não dispunham de tempo para cuidar de seus filhos.

4.     Quais os principais desafios enfrentados e as possíveis soluções?

Como qualquer instituição sem fins lucrativos, temos grandes desafios: Social e Financeiro.
Um é trazer a consciência aos pais de cuidar e zelar pelos seus filhos em todos os aspectos; e procuramos sempre estar instruindo os pais com palestras e informativos; e também pela falta de parceria escola X família para melhor desenvolvimento da criança.
Segundo por termos muitos gastos para manter a associação, pois temos atualmente 80 crianças que permanecem em período integral  onde é oferecido 3 refeições diárias e todo material e suporte para que eles saiam aptos da Educação infantil, temos como mantenedora a Igreja Batista Expansão Ágape, mas temos corrido atrás de doações de alimentos, produtos de higiene entre outros para ajudar no sustento desta instituição.

5.     O que falta para a ONG?

A maior necessidade seria financeira, pois não temos fins lucrativos, pois se tivéssemos mais doações ou empresas que apoiassem o nosso trabalho, poderíamos ampliar o nosso trabalho, assim atenderemos todas as famílias que nos procuram, pois anualmente atendemos 20% das crianças que fazem inscrição, pois não temos espaço físico e financeiro para atender a todos.
 

Entrevista realizada com funcionária da ONG.
Nome: Débora Sousa de Santana
Início na ONG: abril de 2009
Grau de escolaridade: formação Pedagogia

1.     Por que aceitou o cargo de professora na ONG?

Pois na faculdade encontrei um grande prazer nas propostas pedagógicas voltadas para a educação infantil, colocando em pratica tudo o que aprendi na instituição. A sala a qual trabalho é o maternal, tenho um enorme amor por cada criança, procuro dar o meu melhor para cada um deles. Pois são crianças extremamente amorosas. 

2.     Quais as maiores dificuldades em relação a recursos, infra-estrutura, alunos e comunidade?

Encontro dificuldades pois trabalho em uma escola que recebe em seu maior número, crianças carentes, que não recebem os cuidados necessários em: alimentação, vestimenta e higiene pessoal. Na escola temos como foco educar, não é apenas cuidar, porém algumas crianças precisam de uma atenção maior, como: banho. Mas a escola não oferece horário, ou um momento específico para isso.

3.     Quais os principais desafios encontrados no dia a dia?
Agressividade infantil e disputa pela atenção da professora.

4.     Existe parceria entre a comunidade/pais e a ONG? Justifique.

Não. A maioria das festas que desenvolvemos para os pais e comunidades não atinge o número mínimo de visitantes esperados, além disso, muitas mães não respondem a agenda.

5.     O que falta para a ONG?

O espaço não está adequado. Exemplo: vasos sanitários e pia. Brinquedos e materiais pedagógicos.




Sondagem realizada com as crianças da ONG.

Nome: Guilherme
Idade: 3 anos
Sala: maternal II – profª Débora

1.     Você gosta de ir para a ONG?
Gosto... eu estava dodói mas já sarou!

2.     O que mais gosta?
Gosto de brincar, desenhar e fazer atividade – monta-monta de fazer castelo.

3.     O que não gosta?
De não machucar na escola.

4.     Gosta de seus professores e colegas? Por quê?
Gosto. Eles brincam comigo, a pro fica fazendo negócio para a gente fazer atividade e eu gosto.

5.     O que você faz na ONG?
Atividade, comida, durmo e brinco.

6.     O que você faz quando volta para casa?
Brinco com meus pais, com os brinquedos.

7.     Nos finais de semana o que você faz?
Assisto desenho, passear para casa da Naty.



Nome: Fernanda
Idade: 3 anos
Sala: maternal II – profª Débora

1.     Você gosta de ir para a ONG?
Gosto porque é legal.

2.     O que mais gosta?
Brincar com o amigo de pular. 

3.     O que não gosta?
Quando o amigo bate.

4.     Gosta de seus professores e colegas? Por quê?
Gosto porque brinca comigo.

5.     O que você faz na ONG?
Brinco...

6.     O que você faz quando volta para casa?
Durmo, brinco com os meus 11 irmãos.

7.     Nos finais de semana o que você faz?
Brinco com os meus irmãos.

ONG Expansão Ágape - Trabalho realizado pelo grupo

 
 
 
No bairro Vila Mazzei localizado na Zona Norte de São Paulo a ONG Associação Educacional, Cultural, Assistencial e Beneficente Expansão Ágape, na Rua Padre Leão Peruche nº 77, atende 80 crianças de classe baixa, entre dois a cinco anos de idade, ofertando Educação Infantil.
Vila Mazzei é um bairro da cidade de São Paulo, pertencente ao distrito do Tucuruvi. Está localizado na Zona Norte da cidade.
Escolhemos a ONG Expansão Ágape como é chamada, pois além de ser onde uma integrante do grupo trabalha, é uma ONG na área educacional, que necessita de diversas intervenções e auxilio da comunidade.
            Ao falar sobre os projetos da Associação, deparamos com um evento chamado: Alegria na rua. Este evento gratuito é realizado há onze anos, a Associação vem mantendo o mesmo com a ajuda da Igreja Batista Expansão Ágape e de empresários e empresas associadas.
           O evento é inteiramente gratuito, oferece brinquedos de parque de diversão, brindes, atendimento médico (Pediatra), avaliação odontológica, lanches, músicas, teatro, corte de cabelo entre outros.

HISTÓRICO DA INSTITUIÇÃO
 
O Núcleo Educacional Expansão Ágape, foi inaugurado no dia 20/08/2001, Pelo presidente da mesma: Pr. João Augusto Wojciki, localizava-se na Rua Padre Leão Peruche n 21 Vila Mazzei, Zona Norte de São Paulo.
Sua preocupação era atender mães que trabalhassem e não tivessem um lugar adequado para deixar seus filhos. Na época atendia crianças do berçário ao pré.
Quem oferecia o atendimento às crianças era pessoas voluntárias, da própria Igreja Batista Expansão Ágape.
Devido à demanda de crianças a Instituição, mudou de lugar, passando a localizar-se na Rua Ausônia nº 121, Vila Mazzei São Paulo, netas época a ONG não atendia mais crianças de berçário, pois a demanda era entre criança de dois a cinco anos.
Na época a estrutura da casa em que se encontra a Instituição, era precária e necessitava de varias reformas, portanto o desejo do coração do presidente da Instituição era mudar de imóvel, passando a alugar a casa que hoje se encontra, localizada na Rua Padre Leão Peruche n 77, Vila Mazzei São Paulo.
No ano de 2006 a Instituição foi reconhecida pela Prefeitura de São Paulo como uma ONG, passando a chamar-se: Associação Educacional, Cultural Assistencial e Beneficente Expansão Ágape. 
Hoje a Associação não trabalha com voluntários, passando a contratar professores graduados, que ganham o salário normal mantido pela Igreja Batista Expansão Ágape.
 
OBJETIVO
 
A Associação Expansão Ágape tem por finalidade oferecer serviços educacionais para crianças de dois a cinco anos de idade completos, nos Cursos de Educação Infantil.
Conforme a documentação cedido pela ONG.
          Art.4- Pretender uma escola articulada com o mundo e não parte dela educar para a “vida”, desenvolvendo suas capacidades e para tanto trabalhar os aspectos sócio-afetivo, cognitivo, motor, tendo por objetivos:
I – Criar um ambiente favorável ao desenvolvimento físico, mental e do ajustamento social e afetivo;
II - Proporcionar o desenvolvimento da conduta independente através do desenvolvimento da autoconfiança e da iniciativa;
III – Proporcionar o desenvolvimento da criatividade e da auto expressão;
IV – Efetuar intervenção que despertam o espírito ético em paralelo e cidadania, senso cooperativo;
V – Tratar a criança como um ser, respeitando seu ritmo individual;
VI – Desenvolver a capacidade de raciocínio. 


PÚBLICO ALVO
 
             A clientela da Associação Expansão Ágape é de classe baixa, predominando famílias onde pais e mães trabalham fora. Algumas famílias vivem em situações precárias morando até em favelas.
            As crianças atendidas na Associação apresentam, problemas como: agressividade, abandono dos pais, pais com vicio em droga, alcoolismo, falta de higiene entre outros. Em alguns casos e oferecido pela Associação o apoio da psicóloga e atendimento pediátrico.



LOCALIZAÇÃO
 
            Vila Mazzei era uma das estações do Trenzinho da Cantareira, inaugurada em 1925 a estação seguia pelo leito da atual Rua Manoel Gaya até atingir a atual Avenida Maria Amália Lopes de Azevedo, onde havia uma grande pedreira nas encostas da serra da Cantareira. A estação foi desativada e demolida em 1965.
Em termos de estrutura urbana, a região conta com a estação de metrô Tucuruvi, localizado a aproximadamente 500 metros da instituição, uma sub-prefeitura (Tremembé-Tucuruvi), posto de saúde, escolas estaduais e municipais, além de uma rede de escolas privadas que ofertam a Educação Básica.
É um bairro com muitas ladeiras e de característica residencial, com comércio de pequeno e médio porte, tais como: farmácias, padarias, super mercados, pet shops dentre outros.  A Avenida Mazzei é uma das principais do bairro.
As ruas são asfaltadas, havendo ainda boa rede de água, esgotos, eletricidade, correio e telefonia, todavia, o bairro não é arborizado e não existem lixeiras nas ruas.
Existe fácil acesso ao transporte público, ônibus lotações que passam na avenida principal, além da estação Tucuruvi de metrô.
Em relação ao lazer, o bairro não oferece boas opções, havendo apenas uma praça localizada no prédio da subprefeitura. Não existem parques, teatros ou cinemas. De modo que a comunidade necessita deslocar-se que se divertir e elevar a qualidade de vida. De acordo com Apud Bauman “um perigo mais palpável ao que chama de cultura pública é notado na política do medo cotidiano (...) ruas inseguras mantém as pessoas longe dos espaços públicos e as afasta da procura da arte e habilidades necessárias para participar da vida pública”.



ATENDIMENTO
 
As crianças que estudam na ONG, necessitam de atenção em relação a diversos fatores, tais como: higiene em relação à vestimenta (roupa não é lavada em casa), cabelos a maioria das crianças possuem piolhos, lêndeas e caspas), dentes (cariados, não tem o habito de escovarem em casa), unhas (que não são cortadas)  pois não recebem os cuidados necessários em casa, pelos seus pais ou responsáveis, que não são assíduos nas reuniões e eventos que a ONG oferece, além de acreditarem que a instituição só serve para permitir que as crianças tenham três refeições ao dia . As crianças são carentes, sentem falta do afeto dos pais/responsáveis, esses por sua vez não demonstram amor, respeito, carinho, não entendem que seus filhos são crianças em fase de desenvolvimento e descobertas.
            Associação atende 80 crianças, gastando por mês cerca de trinta mil reais, entre aluguel da casa, contas de água, luz, alimentação, material de higiene e limpeza, manutenção do imóvel, pagamento das funcionarias entre outros. Gasta por semana cerca de trinta seis quilos de carne, sem contar com trinta pães por dia, ou seja, cerca de setenta reais por semana.
            No evento Alegria na rua, que a Associação proporciona chega a atender cerca de cinco mil crianças, que desfrutam de brinquedos corte de cabelo, atendimento médico, odontológico, brindes, lanche, música e apresentações.
A cada ano esse evento vem se expandindo e contando com ajuda de mais empresas, que proporcionam mais brinquedos, brindes e uma maior estrutura do evento.
Os alunos da Associação fazem uma apresentação neste evento, para mostra o trabalho que e realizado na Instituição. Esta festa atrai não somente a comunidade da Zona Norte, mas também é costume encontrar no cadastro crianças da Zona leste entre outras.
 A procura por este evento e algo impressionante, é divulgado pela rádio gospel, pelas Igrejas filiais situadas em outras regiões e panfletos distribuídos em vários pontos da cidade.
Este ano o evento será no dia 23/10 das 10h00 ás 19h00, na Rua Estefânia Louro (Altura do n 1800) da Avenida Luiz Dumont Villares. Próximo ao metrô Parado Inglesa.



PONTOS FORTES
 
            Oferta da Educação Infantil de qualidade, gratuita em período integral é o ponto mais forte da ONG, além das crianças terem um amplo espaço para brincarem e se desenvolverem plenamente a ONG conta com uma equipe de profissionais qualificados que estão aptos a proporcionarem desafios motivadores que permitem que os alunos façam novas associações e descobertas a cada dia.
Existe também o Projeto Alegria na Rua, que com auxilio da Igreja Batista, esse projeto é realizado anualmente no mês de outubro e tem como objetivo proporcionar um dia de alegria e promoção da saúde para crianças, pais e comunidade. Neste dia realizamos cortes de cabelo, atendimento médico, pediatra, ginecológico, dentistas, dentre outros profissionais da saúde. Com o auxilio da subprefeitura, montamos um palco na rua, onde acontecem apresentações da dança, teatros, oficinas, oferecem também alimentações como, cachorros quentes, churrascos, algodão doce, pipocas entre outros. Dessa forma a comunidade tem a oportunidade de se socializar, estabelecer vínculos de amizade e confraternização, as crianças de passarem mais tempo com seus pais, além de ser uma opção de lazer que ao mesmo tempo promove a saúde.
 


DIFICULDADES
 
A comunidade não é unida, os pais não são presentes, não estão ao lado da família ou da instituição, não vivem sequer em harmonia. Não participam das feiras culturais ou reuniões de pais que acontecem na Associação. Conforme Apud Bauman “comunidade é nos dias de hoje outro nome para o paraíso perdido”.
A infra-estrutura da ONG ainda não esta adequada às necessidades das crianças, por conter muitas escadas com degraus altos, janelas baixas com vidros, salas pequenas que não comportam o numero de crianças, vaso sanitário e lavatório inadequados ao tamanho das crianças.
Os materiais de didáticos, como a apostila são comprados pelo Mantenedor, todavia estes matérias geram um custo alto no valor de vinte e quatro mil reais, e provavelmente ano que vem será cortado, pois a Associação esta sendo mantida apenas pela Igreja e algumas doações, que não suficientes para o número de gastos, além disso, a Instituição esta a procura de outra casa mais adequada para o atendimento das crianças.
Por falta de ajuda das empresas corre o risco de oferecer vagas apenas para o meu período, não trabalhando mais com período integral, como esta habituada a ofertar. 



MANUTENÇÃO
 
A ONG é uma instituição sem fins lucrativos mantida pela Igreja Batista Renovada Expansão Ágape, localizada na Parada Inglesa. Recebe ajuda de algumas empresas como, por exemplo, o Sonda super mercados, Ceasa e pequenos empresários.
A Associação procura por novas empresas e empresários para ajudar nos custo e gasto da Instituição. No evento Alegria na rua espera mostrar o seu trabalho para os patrocinadores da festa, por meio de uma barraca montada no evento, mostrando vídeos e fotos do trabalho realizado na Associação, além da apresentação de dança das crianças.



OBSERVAÇÃO SOBRE O TRABALHO PEDAGÓGICO
A relação de recursos humanos especificando cargos e funções:
·        Diretora: Juliana Padula Altieri- Pedagoga
·        Secretaria: Suellen Marques de Lima Santos - Pedagoga
·        Professora: Débora Sousa de Santana – Pedagoga
·        Professora: Sheyla Maria Santos da Silva - Pedagoga
·        Professora: Roseli Almeida Perreira- Pedagoga
·        Professora: Claudieia de Almeida Ribeiro Vidal – Magistério e superior incompleto ( cursando)
·        Auxiliar de sala: Gabriela Guerreiro Ribeiro - Superior incompleto (cursando)
·        Cozinheira: Maritizza Del Cammo Uribe–2 Grau incompleto
·        Auxiliar de cozinha: Letícia Sebastião de Souza- 2 Grau incompleto
·        Faxineira: Liana Fontes dos Santos- 2 grau completo
Os parâmetros de organização e relação professor criança:
·        Maternal I: 9 crianças Professora : Gabriela;
·        Materna II: 10crianças Professora: Débora;
·        Jardim I A: 14 crianças Professora: Sheyla;
·        Jardim I B: 14 crianças Professora: Claudineia;
·        Jardim II A: 16 Crianças Professora: Roseli;
·        Jardim II B: 17 Crianças Professora: Mara.
 




CONSIDERAÇÕES FINAIS
 
            A ONG Expansão Ágape realiza um ótimo trabalho educacional na medida do possível, com as condições referentes à infra-estrutura e os recursos financeiros possíveis.
            O que nos chamou atenção foi à cooperação de todos os funcionários e principalmente da diretora, que nos recebeu de portas abertas, e se dispôs a esclarecer todas as nossas duvidas nos oferecendo apoio integral.
            Nota-se que a ONG ainda requer muita atenção e cuidados, pois tem enfrentado sérias dificuldades, entretanto com o evento Alegria na Rua, acreditamos que novos empresários irão surgir, pois várias empresas irão participar do evento.
             O evento que Associação juntamente com Igreja proporciona, e algo maravilhoso que vem expandindo-se a cada ano, atendendo cada vez mais crianças e ocasionando um dia de alegria e felicidade a essas famílias.

Filme: Um sonho Possível

Aula do dia 05/11/2010

Nessa aula assistimos a esse filme maravilhoso baseado em uma história real.



Sinopse: Em 'Um Sonho Possível', o adolescente Michael Oher (QUINTON AARON) sobrevive sozinho, vivendo como um sem-teto, quando é encontrado na rua por Leigh Anne Tuohy (SANDRA BULLOCK). Tomando conhecimento de que o garoto é colega de turma de sua filha, Leigh Anne insiste que Michael — que veste apenas bermuda e camiseta em pleno inverno — deixe-a resgatá-lo do frio. Sem hesitar por um momento sequer, ela o convida a passar a noite em sua casa. O que começa com um gesto de bondade evolui para algo maior, pois Michael passa a fazer parte da família Tuohy, apesar de terem origens bem diferentes.
Vivendo no novo ambiente, o adolescente tem de encarar outros desafios. E à medida que a família ajuda Michael a desenvolver todo o seu potencial, tanto no campo de futebol americano quanto fora dele, a presença de Michael na vida da família Tuohy conduz todos por uma jornada de autodescoberta.

Nas associações, ONGs, acontece como no filme, tudo se inicia com um ato de bondade e tende a evoluir para algo maior. Dar sentido a vida das pessoas, sisnificado, abrir uma porta nova para seguirem suas vidas e terem oportunidades na sociedade. Levar alegrias e esperanças, ajudar de algum modo, é o que os voluntarios e funcionarios desejam e lutam.

Terceiro Setor no Brasil


O terceiro setor é constituído por organizações sem fins lucrativos e não governamentais, que tem como objetivo gerar serviços de caráter público.

O terceiro setor possui 12 milhões de pessoas, entre gestores, voluntários, doadores e beneficiados de entidades beneficentes, além dos 45 milhões de jovens que vêem como sua missão ajudar o terceiro setor.

Os principais personagens do terceiro setor são:

Fundações

São as instituições que financiam o terceiro setor, fazendo doações às entidades beneficentes. No Brasil, temos também as fundações mistas que doam para terceiros e ao mesmo tempo executam projetos próprios.

Temos poucas fundações no Brasil. Depois de 5 anos, o GIFE - Grupo de Instituições, Fundações e Empresas - com heróico esforço, conseguiu 66 fundações como parceiras. No entanto, muitas fundações no Brasil têm pouca atuação na área social.

Nos Estados Unidos já existem 40.000 fundações, sendo que a 10º colocada tem 10 bilhões de dólares de patrimônio. Nossa maior fundação tem um bilhão.

Devido à inflação, seqüestros de dinheiro e congelamentos, a maioria de nossas fundações não tem fundos. Vivem de doações anuais das empresas que as constituíram. Em épocas de recessão, estas doações Mínguam, justamente quando os problemas sociais aumentam.

O conceito de fundação é, justamente, o de acumular fundos nos anos bons para poder usá-los nos anos ruins. A Fundação Bradesco é um dos raros exemplos de fundação com fundos.

Entidades Beneficentes

São as operadoras de fato, cuidam dos carentes, idosos, meninos de rua, drogados e alcoólatras, órfãos e mães solteiras; protegem testemunhas; ajudam a preservar o meio ambiente; educam jovens, velhos e adultos; profissionalizam; doam sangue, merenda, livros, sopão; atendem suicidas às quatro horas da manhã; dão suporte aos desamparados; cuidam de filhos de mães que trabalham; ensinam esportes; combatem a violência; promovem os direitos humanos e a cidadania; reabilitam vítimas de poliomelite; cuidam de cegos, surdos-mudos; enfim, fazem tudo.

São publicados números que vão desde 14.000 a 220.000 entidades existentes no Brasil, o que inclui escolas, associações de bairro e clubes sociais. Nosso estudo sobre as entidades que participaram do Guia da Filantropia, revela que as 400 Maiores Entidades representaram, praticamente, 90% da atividade do setor em 2001.


Fundos Comunitários

Community Chests são muito comuns nos Estados Unidos. Em vez de cada empresa doar para uma entidade, todas as empresas doam para um Fundo Comunitário, sendo que os empresários avaliam, estabelecem prioridades, e administram efetivamente a distribuição do dinheiro. Um dos poucos fundos existente no Brasil, com resultados comprovados, é a FEAC, de Campinas.
Entidades Sem Fins Lucrativos

Infelizmente, muitas entidades sem fins lucrativos são, na realidade, lucrativas ou atendem os interesses dos próprios usuários. Um clube esportivo, por exemplo, é sem fins lucrativos, mas beneficia somente os seus respectivos sócios. Muitas escolas, universidades e hospitais eram no passado, sem fins lucrativos, somente no nome. Por isto, estes números chegam a 220.000.

O importante é diferenciar uma associação de bairro ou um clube que ajuda os próprios associados de uma entidade beneficente, que ajuda os carentes do bairro.

São as operadoras de fato, cuidam dos carentes, idosos, meninos de rua, drogados e alcoólatras, órfãos e mães solteiras; protegem testemunhas; ajudam a preservar o meio ambiente; educam jovens, velhos e adultos; profissionalizam; doam sangue, merenda, livros, sopão; atendem suicidas às quatro horas da manhã; dão suporte aos desamparados; cuidam de filhos de mães que trabalham; ensinam esportes; combatem a violência; promovem os direitos humanos e a cidadania; reabilitam vítimas de poliomielite; cuidam de cegos, surdos-mudos; enfim, fazem tudo.

São publicados números que vão desde 14.000 a 220.000 entidades existentes no Brasil, o que inclui escolas, associações de bairro e clubes sociais. Nosso estudo sobre as entidades que participaram do Guia da Filantropia, revela que as 400 Maiores Entidades representaram, praticamente, 90% da atividade do setor em 2001.

ONGs Organizações Não Governamentais

Nem toda entidade beneficente ajuda prestando serviços a pessoas diretamente. Uma ONG que defenda os direitos da mulher, fazendo pressão sobre nossos deputados, está ajudando indiretamente todas as mulheres.
Nos Estados Unidos, esta categoria é chamada também de Advocacy Groups, isto é, organizações que lutam por uma causa. Lá, como aqui, elas são muito poderosas politicamente.

Empresas com Responsabilidade Social

A Responsabilidade Social, no fundo, é sempre do indivíduo, nunca de uma empresa jurídica, nem de um Estado impessoal. Caso contrário, as pessoas repassariam as suas responsabilidades às empresas e ao governo, ao invés de assumirem para si. Mesmo conscientes disso, vivem reclamando que os "outros" não resolvem os problemas sociais do Brasil.

Porém, algumas empresas vão além da sua verdadeira responsabilidade principal, que é fazer produtos seguros, acessíveis, produzidos sem danos ambientais, e de estimular seus funcionários a serem mais responsáveis.
O Instituto Ethos - organização sem fins lucrativos criado para promover a responsabilidade social nas empresas - foi um dos pioneiros nesta área.

Empresas Doadoras

Uma pesquisa revela que das 500 maiores empresas brasileiras, somente 100 são consideradas parceiras do terceiro setor. Das 250 empresas multinacionais que têm negócios no Brasil, somente 20 são admiradas.
A maioria das empresas consideradas parceiras são pequenas e médias e são relativamente desconhecidas pelo grande público.

Elite Filantrópica

Ao contrário de Ted Turner, Bill Gates e dos 54 bilionários que o Brasil possui, somente 2 são considerados bons parceiros do terceiro setor (Jorge Paulo Lehman e a família Ermírio de Moraes). A maioria dos doadores pessoas físicas são da classe média. Esta tendência continua na classe mais pobre. Quanto mais pobre, maior a porcentagem da renda doada como solidariedade.
Pessoas Físicas

No mundo inteiro, as empresas contribuem somente com 10% da verba filantrópica global, enquanto as pessoas físicas, notadamente da classe média, doam os 90% restantes. No Brasil, a nossa classe média doa, em média, 23 reais por ano, menos que 28% do total das doações. As fundações doam 40%, o governo repassa 26% e o resto vem de bingos beneficentes, leilões e eventos.

Imprensa

Até 1995, a pouca cobertura que a Imprensa fazia sobre o terceiro setor era, normalmente, negativa. Com a descoberta de que a maioria das entidades é séria e, portanto, faz bom trabalhos, este setor ganhou respeitabilidade. Com isso, quadruplicou a centimetragem de notícias sobre o terceiro setor. A missão agora é transformar este novo interesse em cobertura constante.

Empresas Juniores Sociais

Nossas universidades pouco fizeram para o social, apesar de serem públicas. É raro encontrar um professor universitário assessorando uma ONG com seus conhecimentos. Nos últimos anos, os alunos criaram Empresas Juniores Sociais, nas quais os alunos das escolas de Administração ajudam entidades. Algumas das mais atuantes são a FEA-Júnior da USP, a Júnior Pública da FGV, e os ex-alunos do MBA da USP.

Levantamento feito pelo ISER (Instituto Superior de Estudos da Religião - RJ), em parceria com a Johns Hopkins University, apurou que o Brasil tem em torno de 220 mil instituições beneficentes, sem fins lucrativos, congregando 10 milhões de voluntários, prestando atendimento direto a cerca de 40 milhões de pessoas, isto é, 1/4 da população brasileira.

São números gigantescos que sempre foram desconhecidos. A descoberta só aconteceu quando o governo publicou uma lei (nº 9.732/98) eliminando isenções fiscais de todas as entidades de assistência social. O governo legislou para uma minoria fraudulenta e fulminantemente produziu um impacto sobre a massa de milhões da atividade beneficente, compreendendo voluntários e atendidos que cobrem a área dolorosa da omissão do Poder Público.
Duas características sobressaem:

1º É um contingente de brasileiros que carrega a bandeira do cumprimento dos deveres num país formado na cultura monotônica de exaltada exigência de direitos, freqüentemente sem a contrapartida indispensável do cumprimento dos deveres;

2º Apesar de imenso, esse contingente humano vê sua força inibida pela falta de organização.

A primeira característica é essencial, a segunda é circunstancial. Circunstancial porque, uma vez contando com o que é realmente essencial - o potencial de arregimentação e decisão - o quadro de desorganização poderá ser revertido. E, efetivamente, esse quadro começou a alterar-se.


Uma Visão histórica

Originaram-se da participação das entidades sem fins lucrativos no Brasil, que é datada no final do século XIX. Pode-se até mesmo citar o exemplo das Santas Casas que remontam mais atrás, na segunda metade do século XVI, e trás consigo uma tradição da presença das igrejas cristãs que direta ou indiretamente atuavam prestando assistência à comunidade. Toma-se como destaque a Igreja Católica, que com suporte do Estado, era responsável pela maior parte das entidades que prestavam algum tipo de assistência às comunidades mais necessitadas, que ficavam às margens das políticas sociais básicas de saúde e educação. A atuação das Igrejas, concomitante com o Estado, durou todo o período colonial, até início do século XIX.

Já no século XX, surgem outras religiões, que juntamente com a Igreja Católica, passam a atuar no campo da caridade com fins filantrópicos associadas ao Estado. Mas, no período republicano, a relação Igreja e Estado mudou, uma vez que antes esses dois objetivavam o atendimento e a assistência das questões sociais. Nessa nova fase, passam a atuar outras religiões, utilizando-se das mesmas práticas da Igreja Católica, beneficiando-se também, de parcerias  com fins filantrópicos junto ao Estado.

Além da introdução de novas instituições atuando em setores que até então tinham a atuação de atores tradicionais, um outro fator que colaborou para essa mudança de relacionamento entre a Igreja e o Estado foi a modernização natural da própria sociedade, fruto da industrialização e urbanização da época, fazendo com que aumentasse a complexidade dos problemas sociais. Dentro desse contexto, começam a aparecer na década de 30 várias entidades da sociedade civil, na maioria também atreladas ao Estado. O Estado Novo deu continuidade ao processo de criação de organizações de finalidade pública. Ainda nesse período, cresce o número de entidades atuando no Terceiro Setor, cuja representatividade  já não era tão definida, ou seja, não se tratava mais só de Igrejas e Estado, mas também, de entidades não governamentais, sem fins lucrativos e de finalidade pública.

Uma sociedade tradicionalmente hierarquizada e desigual se acentua nas décadas de 70 e 80. Começam a surgir movimentos sociais, opondo-se especialmente às práticas autoritárias do regime militar desse período, assim como reivindicando direitos sociais.

Vale destacar a Constituição de 1988, que num amplo processo de mobilização social, promoveu melhorias no que diz respeito ao aumento dos direitos de cidadania política e princípios da descentralização na promoção de políticas sociais. Adicionalmente, houve muitas pressões dos movimentos populares, através dos chamados “lobbies populares” no congresso, a fim de que emendas populares fossem aprovadas. É inegável que a Nova Constituição representou um avanço no que diz respeito a política social no Brasil.

Constata-se nas últimas décadas um crescimento quantitativo e qualitativo do Terceiro Setor como um todo, em especial das ONGs (Organizações-Não-Governamentais). Com a consolidação democrática, através das pluralidades partidárias, formação de sindicatos e fortalecimentos de movimentos sociais urbanos e rurais, abre-se espaço para uma atuação mais efetiva das ONGs.

Em virtude da atuação ineficiente do Estado, em especial na área social, o Terceiro Setor vem crescendo e se expandindo em várias áreas, objetivando atender a demanda por serviços sociais, requisitados por uma quantidade expressiva da população menos favorecida, em vários sentidos, de que o Estado e os agentes econômicos não têm interesses ou não são capazes de provê-la. Seu crescimento vem em virtude, também, de práticas cada vez mais efetivas de políticas neoliberal do capitalismo global, produzindo instabilidade econômica, política e social, principalmente nos países do terceiro mundo.

Adicionalmente, esse setor tem como premissa básica, a eqüidade e a justiça social com as instituições democráticas. A Campanha “Ação Contra a Fome, a Miséria e pela Vida”, foi um marco pela sua abrangência e poder de mobilização, dirigida pelo sociólogo Herbert de Sousa, o Betinho, citado por BAVA (2000, p.55), que coloca nos seguintes termos:

Vamos sonhar, pensar e praticar a democracia, cada um fazendo a sua parte, tomando iniciativa, pondo a sua própria capacidade a serviço de todos e, tomando a iniciativa, pondo a sua própria capacidade a serviço de todos e, com isso, exercendo o direito e o dever de cidadania.

Até mesmo o Segundo Setor, que funciona com uma lógica diferente, na qual visa o lucro, já a partir da década de 90, encabeça e dirige recursos para programas e projetos sociais, especialmente, através de suas fundações e institutos, sendo assim mais uma opção de recursos para a área do Terceiro Setor.

Em função do crescimento do Terceiro Setor na década de 90, houve a premente necessidade de leis adequadas, tamanha a sua importância e expansão na nossa sociedade. A lei até então vigente, i.e. Código Civil de 1917, já estava obsoleta. 

Considerações Finais

Atuar no terceiro setor é um desafio. Ainda há necessidades de melhorias na gestão institucional. Por se constituir em organizações da sociedade civil que atua com finalidade pública tem a sua especificidade de atuação, a gestão institucional no terceiro setor ainda é um processo em construção.
A atuação de profissionais competentes, comprometidos e participativos se faz de fundamental importância, dentre eles, o pedagogo, que pode atuar de várias maneiras dentro da área visando a relação educacional, desenvolvimentos de novas atividades, orientação pedagógica ou coordenação entre outros.






Projetos do Terceiro Setor

Em becos e vielas, jornais e criatividade


“Cadê a merda do meu ônibus?”. A manchete do jornal não esconde seu caráter de inconformismo. Ele é feito por jovens moradores do Jardim Ângela, uma das áreas de renda mais baixa da zona sul de São Paulo (SP). A reportagem revela a precariedade do transporte público na região e a falta de investimentos em melhorias. Outro título alerta: “Salve-se quem puder – a zona sul está cheia de áreas de risco. Morar aqui pode ser perigoso”. A matéria mostra que muitas casas no entorno do bairro podem desabar se nenhuma medida for tomada. São temas recorrentes a quem habita áreas pobres, mas que poucas vezes aparecem na grande imprensa. No jornal Becos e Vielas, entretanto, são sempre tema central. O veículo de comunicação, de cuja terceira edição foram retirados os títulos acima, é um projeto da Ação de Incentivo à Comunicação Papel Jornal, que atua na zona sul paulistana desde 1999.

A entidade ministra oficinas de produção jornalística e outras para incentivar a criatividade dos jovens e melhorar seu nível educacional. As aulas são dadas por profissionais voluntários, que contam com uma infra-estrutura razoável para seus trabalhos. Atualmente, o número de alunos gira em torno de 35. O dado não é exato, pois alguns não conseguem freqüentar todas as aulas durante o curso, que dura dois anos. A seleção é feita sempre ao fim de uma turma e envolve redação, entrevista pessoal e uma dinâmica de grupo para atestar a disposição de participar dos envolvidos.

Há três oficinas voltadas diretamente para o jornal: de reportagem e texto, de diagramação e de fotografia. Cada uma conta com pelo menos um responsável, que dedica três a quatro horas por semana às atividades. Alguns são jornalistas profissionais, que trabalham em grandes jornais da capital, como a Folha de São Paulo. No total, são 11 professores.

Os mestres têm à disposição 16 computadores nos quais são digitados os textos e diagramadas as páginas da publicação. Parte da apuração, quando necessário, também é feita com o auxílio das próprias máquinas, todas conectadas à internet. Para as fotografias, 15 câmeras não-profissionais estão disponíveis. Há ainda um laboratório de revelação de fotos em preto e branco, mas a maioria das imagens é colorida, revelada fora da entidade.

Com esse material já foram produzidas cinco edições, com média de 15 páginas cada em formato A4 e em cores. Não há periodicidade definida. Os jornais são editados de acordo com a disponibilidade de pautas, repórteres e dinheiro para impressão. O primeiro número foi publicado em 2000 e o segundo, apenas no ano seguinte. Em 2002 não houve edição, só retomada em 2003 e em 2004, quando foram lançadas duas publicações. A tiragem tem crescido. O número de estréia teve três mil cópias, ao passo que a última foi distribuída com sete mil exemplares.

Além do Becos e Vielas, também é editado um jornal mural, fruto de uma parceria com o programa Paz nas Escolas, do Ministério da Justiça. Ele tem tiragem de 800 cópias e é colado nos estabelecimentos de ensino da zona sul de São Paulo desde 2002.

As pautas de ambos os veículos são decididas pelos repórteres. Os professores apenas orientam a apuração e a redação, dando dicas de fontes e abordagem de entrevistados e assuntos. Como o jornal pretende ser local, as matérias sempre giram em torno dos problemas que os alunos do curso enfrentam e de soluções para eles. Também há espaço para manifestações culturais, como grafite e dança. A linguagem é leve, para facilitar a leitura, e a diagramação é moderna, para atrair visualmente.

Na edição de 2003, por exemplo, a matéria de capa trata de “consumo consciente”. Diz o editorial: “Vivemos em um mundo capitalista e somos condicionados a ser consumistas. Por isso precisamos usar a inteligência para lutar contra os males do sistema”. Todas as matérias são ilustradas.

Criatividade

Para fazer todas as atividades, é necessário ter criatividade. O estímulo fica por conta do publicitário Glauco Ciasca e do artista Luiz Roberto Rodrigues, o Lopreto, que, interessados pela oficina de jornalismo, decidiram começar uma de história da arte e criatividade. “Há uma necessidade, não só nessas áreas de baixa renda, de criar e saber mais sobre a história da arte”, diz Ciasca. No meio do ano passado, ele começou a dar aulas de três horas de duração, uma vez por semana, para os interessados.

A metodologia justifica o nome da oficina. O publicitário guarda para si alguma das frases produzidas em uma aula em que pediu para os alunos participarem de uma “maratona de escrita”. Cada um tinha que escrever sem parar durante 15 minutos em um rolo de papel higiênico. “Surgiram temas importantes, como violência, amor, música”, lembra Ciasca, que afirma que o maior ganho dessa atividade foi a integração entre os jovens.

Outra aula que chamou atenção foi a de “bagagem cultural”, na qual havia uma mala onde os alunos depositavam objetos pessoais. Antes, porém, eles precisavam contar uma história na qual aquele objeto estava envolvido. Ciasca afirma que um dos momentos marcantes dessa aula foi quando ele próprio narrou a história de um amigo escocês que havia vivido até a adolescência sem luz elétrica. O fato criou rebuliço na classe, que não imaginava ser possível algo do tipo acontecer. O professor lembrou que uma das presentes tinha vindo de um cidade no interior do Nordeste onde também não havia eletricidade e pediu para ela contar como era viver naquela situação. “A menina tinha vergonha do passado, mas com o diálogo passou a se orgulhar. Começou a se ver como vencedora”, comemora.

As aulas não agradam só aos professores. “Achei que o curso de Criatividade foi bem importante, aprendi como se escreve uma poesia, como são as propagandas etc. As aulas eram descontraídas, sempre tinha algo diferente, como se fosse uma brincadeira, e tudo parecia mais fácil. Acho que com esse curso deu para perceber se tenho talento para poesia, por exemplo. Fui me descobrindo. Adorei a proposta da 'bagagem cultural', foi superlegal", diz Elisangela da Silva, de 23 anos.

Ampliação

A Oficina de Criatividade foi a última a ser criada. A idéia da Papel Jornal surgiu quando uma fotógrafa da Folha de São Paulo foi cumprir uma pauta no Jardim Ângela. Enquanto trabalhava, alguns jovens pediam para mexer na câmera. A jornalista disse, então, que poderia ensiná-los a fotografar se reunissem mais alguns amigos. Ela contou a história a alguns colegas, que gostaram da idéia e decidiram ampliar o foco. Assim criaram as oficinas de jornalismo e o próprio jornal.

Além das aulas de jornalismo, há também a de cidadania e a de português – esta em uma parceria com a Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Ambas também são ministradas por voluntários. A idéia agora, porém, é atender mais pessoas, bem como aumentar o acervo da biblioteca local, que possui 800 títulos.

Até 2002, uma parceria com o Instituto Ayrton Senna garantiu as atividades e a compra de equipamentos. Quando o acordo chegou ao fim, a empresa de assessoria de comunicação Máquina de Notícias passou a colaborar financeiramente para que as contas fossem pagas. Esse apoio permanece até hoje, mas não é suficiente para atender o crescimento desejado. A publicação do jornal só está garantida até a metade deste ano, quando termina o apoio da Petrobras ao programa.

“Até agora, sempre dependemos do trabalho voluntário, mas queremos começar a profissionalizar nossas atividades”, diz Alessandro Nery, coordenador-executivo da Papel Jornal. A idéia é atender 150 jovens em todas as oficinas, mas a capacidade física do local onde trabalham é de apenas 40 pessoas. Seria necessário ampliar o espaço e comprar mais equipamentos.

O custo anual das oficinas de jornalismo chega a R$ 90 mil, enquanto a de criatividade é de R$ 40 mil, mas consumiria R$ 10 mil a mais se todos os materiais fossem comprados e os profissionais, remunerados.

Nery afirma estar esperando o resultado de algumas seleções das quais participou para conseguir atender a demanda da comunidade do Jardim Ângela, mas não teme pelo fim do programa. Todos os professores já se comprometeram a manter as atividades, mesmo sem pagamento.

Marcelo Medeiros
http://arruda.rits.org.br/rets/servlet/newstorm.notitia.apresentacao.ServletDeSecao?codigoDaSecao=5&dataDoJornal=1109970030000
Novidade
Novidades do Terceiro Setor



Criatividade: matéria-prima e produto



Musicalização | Fábrica de Criatividade

Em março do ano passado, foi inaugurada, em São Paulo (SP), aquilo que os organizadores chamaram de primeira “escola de criatividade” em toda a América do Sul. Com uma proposta educacional que estimula a criatividade, a nova escola - que atende pelo nome de Fábrica de Criatividade e foi transformada em uma ONG no dia 20 de junho - oferece aulas de artes plásticas, música, teatro e idiomas, assim como shows e recitais de poesias. Além da nova metodologia educacional, a Fábrica de Criatividade pretende ser também o primeiro pólo cultural do bairro de Capão Redondo, conhecido como um dos mais violentos da cidade de São Paulo (SP).

No ano de 2000, o músico Denílson Shikako teve o pai assassinado durante uma tentativa de assalto em Capão Redondo e a primeira reação que teve foi pensar em sair do país. “Após o assassinato de meu pai, eu e minha família pensamos em ir para os Estados Unidos, mas amigos e colegas de trabalho me convenceram a permanecer no país, alegando que algo precisava ser feito para que mortes como a de meu pai não acontecessem mais. Assim, fiquei no Brasil mas com uma condição: realizar um trabalho sério que tentasse mudar essa realidade”, conta o músico.

Essa foi a história que deu origem a um dos projetos mais ousados em São Paulo que pretende, com força de vontade e pincéis, pintar uma nova realidade para o bairro de Capão Redondo. “A idéia é transformar o bairro através da cultura, criando novos caminhos e perspectivas para crianças e adolescentes da região”, explicou Shikako.

Assim, com apoio de empresas e de amigos, foi construída a escola da Fábrica de Criatividade que, além das atividades culturais e educacionais, oferece uma aula de criatividade, matéria diferente que procura estimular o potencial do cérebro dos jovens para desenvolver idéias inovadoras. De acordo com Shikako, a Fábrica de Criatividade possui três elementos fundamentais: a arquitetura especial desenhada especificamente para abrigar a escola, uma metodologia que estimula a criação de novas idéias e aulas interdisciplinares, bem como profissionais qualificados.

A Fábrica pretende ser não só um espaço de aprendizagem, mas um espaço de cultura e lazer para os moradores de Capão Redondo. Para Shikako, unir educação a arte e cultura é fundamental para transformar o ato de aprendizagem em um prazer: “O bairro de Capão Redondo não possui nenhum espaço de cultura além da Fábrica. Agora, os moradores da região podem ocupar seu tempo com atividades culturais a que não tinham acesso antes. Essa é uma forma também de afastar jovens e crianças de problemas como a violência e aproximá-los da arte e da cultura”.

Eliana de Castro, diretora de comunicação da ONG, conta que a própria estrutura da escola pretende estimular a criatividade dos alunos: “A idéia é ser um espaço de aprendizado que ultrapasse o limite tradicional entre professor e aluno. É muito comum ver os alunos presentes na escola, participando da promoção dos eventos e realizando atividades extra-escolares”.

Com capacidade para atender mais de três mil alunos, a Fábrica de Criatividade tem hoje cerca de 300 alunos. Os cursos oferecidos custam em média R$ 70, mas como nem todo mundo pode pagar, a idéia é oferecer bolsas para mil jovens da região. “Ao transformar nosso projeto em uma organização não-governamental (ONG) pretendemos atrair empresas e instituições parceiras, podendo assim ampliar o número de bolsas para os jovens da região. Atualmente, cerca de 30% dos nossos alunos são bolsistas", explica Shikako.

Segundo ele, foram investidos cerca de R$ 1,5 milhão na construção da Fábrica e experiências semelhantes foram observadas em escolas na Itália e nos Estados Unidos: “Realizamos diversas pesquisas no mundo inteiro e - inspirados em iniciativas como a Fábrica, da Benneton, na Itália, e a empresa Ideo, nos Estados Unidos - elaboramos o projeto da Fábrica de Criatividade”.

Rodrigo de Oliveira Andrade, 18 anos, participa como bolsista do curso de desenho artístico da Fábrica há cerca de um ano. Para ele, as aulas da Fábrica se diferenciam dos cursos tradicionais por estimularem a criatividade e não a cópia de modelos consagrados. “Aqui, os professores estimulam mais a criatividade no desenho e não só ficar copiando o que já foi feito”.

Atualmente, a Fábrica tem parcerias com organizações como o Grupo Cultural Afro Reggae e a ONG Jardim Amália Melhor, além de escolas públicas do município e do estado de São Paulo.

Joana Moscatelli

http://arruda.rits.org.br/rets/servlet/newstorm.notitia.apresentacao.ServletDeSecao?codigoDaSecao=4&dataDoJornal=1151692952000
1. INTRODUÇÃO
As entidades constituídas com personalidade jurídica privada, mas de fins públicos, também conhecidas como entidades do terceiro setor, são tradicionalmente identificadas pela legislação brasileira como entidades de utilidade pública. Para o leigo, a denominação entidade de utilidade pública, à semelhança da recente denominação organização social, designa uma espécie de entidade, uma forma especial de organização, reconhecível prontamente no plano da realidade sensível. Mas se trata de uma ilusão lingüística. Essas designações consistem apenas em títulos jurídicos. Em princípio, títulos jurídicos que podem ser conferidos, suspensos ou retirados. Essas expressões não traduzem uma forma de pessoa jurídica privada. Nem informam uma qualidade inata ou traço original de qualquer espécie de entidade. Dizer de alguma entidade que ela é "de utilidade pública" ou "organização social" significa dizer que ela recebeu e mantém o correspondente título jurídico.
No Brasil, recentemente, instalou-se com intensidade incomum o debate sobre a utilidade e a adequação à realidade dos nossos dias do tradicional título de utilidade pública. Discussões dentro e fora do aparelho do Estado, envolvendo inclusive entidades do terceiro setor, propuseram saídas para o que pode ser denominado como a crise do título de utilidade pública. Recentemente, duas propostas ganharam a forma de lei (v.g., Lei n. 9.637, de 15 de maio de 1998 - Organizações Sociais; Lei n. 9.790. de 23 de março de 1999 - Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público).
A discussão da matéria admite ângulos distintos de análise (administrativo, econômico, político, jurídico, histórico, social etc.). No aspecto jurídico, no entanto, a discussão não apenas tem sido limitada, com poucos estudos sobre o tema, mas também restrita a uma interpretação do conteúdo da legislação existente, com vista a aplicação do direito vigente. No momento, porém, além da tarefa de compreensão para aplicação, tradicional entre os juristas, parece fundamental realizar também o que se tem denominado avaliação da legislação (CHEVALLIER, 1992:18-22; ATIENZA, 1997:64 e segs). Nesta última abordagem, a atenção do jurista técnico não se concentra na fase da aplicação da norma legal, mas na fase de sua elaboração (avaliação legislativa ex ante) ou na fase subsequente dos efeitos por ela produzidos ou a produzir (avaliação legislativa ex post).
É comum dizer-se que a avaliação legislativa é tarefa não jurídica. Essa afirmação envolve, no entanto, uma dupla incompreensão. Primeiro, uma incompreensão sobre o papel dos juristas. Segundo, uma incompreensão sobre as formas de avaliação da legislação vigente ou em estado de produção.
Os juristas não são (ou não devem ser) simples leguleios da lei. Não são simples espectadores do processo legislativo. O saber dos juristas é um saber de protagonistas, pois mediante o discurso dos juristas são estabelecidas decisões ou condições para a tomada de decisões jurídicas. Isso ocorre porque, enquanto a maior parte das ciências opera com um objeto dado, que o cientista pressupõe como uma unidade estável, o objeto do jurista é um objeto lingüístico, socialmente condicionado, que se elabora e apresenta ao domínio público mediante a decisão interpretativa. Esta é a razão de se dizer, não sem algum exagero, que o objeto do saber do jurista não é algo dado ao seu conhecimento, mas o resultado do seu labor. Sobremais, os juristas tendem a ser vistos como agentes sociais que monopolizam o discurso técnico sobre as normas da coletividade, com condições de antecipar as conseqüências negativas e positivas da aplicação das normas jurídicas aprovadas ou em fase de aprovação, propor novas pautas de solução de conflitos, bem como capacidade de enquadrar de forma argumentativa os novos conflitos no interior do direito já existente, enfraquecendo ou eliminando temporariamente conflitos (FERRAZ JR, 1994: 280-1; 1980:149 e segs; MODESTO, 1997:197-8).
De outra parte, a avaliação da legislação não precisa ser limitada a meras apurações empíricas, realizadas com o instrumental da sociologia geral ou jurídica, da ciência política ou da administração, com vistas a determinar se os objetivos da norma legal foram atendidos (eficácia prática da norma), apurar qual a sua específica relação de custo-benefício (eficiência da norma) ou o grau de adesão que ela obtém do público (grau de legitimação). Faz-se também avaliação legislativa quando se apura a compatibilidade entre os propósitos declarados na norma e o resultado normativo final, bem como a congruência dos objetivos normativos com as possíveis conseqüências da inteira aplicação do modelo legal.
Neste trabalho, procurando utilizar uma linguagem acessível, esboço uma breve avaliação sobre a crise do título de utilidade pública, bem como sobre a concordância dos novos títulos jurídicos (o título de organização social e o título de organização da sociedade Civil de Interesse Público) face aos propósitos que enunciam. Tenta-se sugerir, ainda, soluções técnicas para correção de lacunas e inconsistências percebidas nos dois últimos títulos referidos, com vistas ao seu aperfeiçoamento. Este trabalho, de certo modo, continua a exploração do tema sobre o marco legal do terceiro setor iniciada em artigo anterior (MODESTO, 1997). No entanto, ao contrário do artigo referido, este trabalho propõe uma discussão avaliativa dos resultados alcançados com os textos normativos disponíveis no plano da União e não uma discussão analítica do tema. Mas não se abandona por completo a perspectiva analítica; o texto inicia exatamente com uma análise das vantagens e desvantagens da concessão de títulos jurídicos especiais a entidades do terceiro setor. Trata-se de tarefa que não é isenta de dificuldades, mas que parece urgente empreender.
2. VANTAGENS E DESVANTAGENS DA CONCESSÃO
DE TÍTULOS JURÍDICOS ESPECIAIS A ENTIDADES DO TERCEIRO SETOR

A concessão caso a caso de títulos jurídicos especiais a entidades do terceiro setor parece atender a pelo menos três propósitos. Em primeiro lugar, diferenciar as entidades qualificadas, beneficiadas com o título, relativamente às entidades comuns, destituídas dessa especial qualidade jurídica. Essa diferenciação permite inserir as entidades qualificadas em um regime jurídico específico. Em segundo lugar, a concessão do título permite padronizar o tratamento normativo de entidades que apresentem características comuns relevantes, evitando o tratamento legal casuístico dessas entidades. Em terceiro lugar, a outorga de títulos permite o estabelecimento de um mecanismo de controle de aspectos da atividade das entidades qualificadas, flexível por excelência, entre outras razões, porque o título funciona como um instrumento que admite não apenas concessão, mas também suspensão e cancelamento.
A realização desses propósitos, necessariamente interrelacionados, em princípio pode ser vista como vantajosa e reveladora das funções desempenhadas pelos títulos jurídicos, em especial as funções de certificação, padronização e controle jurídico. Sem dúvida, as entidades que recebem o título são vistas como entidades certificadas, que possuem uma qualidade jurídica específica, o que usualmente lhes garante um regime de benefícios e apoios especiais previstos na lei apenas para as entidades qualificadas. Passam a receber enquadramento jurídico distinto do comum, pelo simples fato de receberem ou manterem o título especial. Em princípio, salvo previsão legal, esse título independe de um juízo sobre o mérito da atuação da entidade, relacionando-se apenas com o atendimento dos requisitos de concessão do título e com o atendimento das exigências de manutenção de título, se houver. Por outro lado, a concessão de um título padrão libera o legislador da tarefa de criar a cada momento vantagens e benefícios ad hoc, de forma isolada, em favor de entidades que exercitem atividades de interesse coletivo. O legislador limita-se a fixar benefícios e obrigações especiais para um número indeterminado de entidades da sociedade civil, presentes e futuras, furtando-se a uma atuação casuística. Por fim, na medida em que o título assume o papel de veículo que introduz a entidade no regime jurídico especial, mais favorável, vem a servir também de instrumento no controle das entidades qualificadas, pois aquelas que se desviam de suas missões podem ser penalizadas com a cassação ou suspensão do título, perdendo as vantagens anteriormente usufruídas. Neste regime, não há direito adquirido ao título, ou às vantagens a ele associadas, conformadoras do regime jurídico especial, quando a entidade viola as exigências de sua válida manutenção.
Mas existem também desvantagens que podem ser associadas ao mecanismo de concessão de títulos jurídicos especiais a entidades do terceiro setor. São efeitos perversos, efeitos eventuais ou não desejados dessa técnica jurídica, mas que não podem ser desconsiderados por completo. Para simplificar, vinculo-os às funções básicas dos títulos jurídicos. Assim, ligado à função de certificação surge a possibilidade de certificação indevida, realizada sem critério, por ato administrativo ou lei casuística, como perversão de muitas vezes difícil controle. A concessão graciosa e indevida do título pode revelar tanto a frouxidão dos critérios utilizados para reconhecimento do título pela autoridade competente quanto hipótese de clara fraude, violação intencional do modelo legal geral na matéria. A reiteração de certificações indevidas produz com o tempo uma erosão da credibilidade do título, pois este deixa de servir efetivamente como instrumento de identificação de uma certo tipo de entidade, para ser confundido com uma simples exigência legal. As entidades são divididas em "autênticas" e "inautênticas", independentemente de possuírem ou não o título, perdendo este em parte a sua função de certificação, ao menos para fins simbólicos. A segunda desvantagem da técnica, ou perversão possível do modelo, é o risco da padronização excessiva de vantagens e obrigações legais para entidades distintas. Isso ocorre quase inevitavelmente quando as exigências para concessão do título são muito genéricas, isto é, quando a lei não cuida de realizar distinções importantes e adota uma formulação excessivamente abrangente. Neste caso, o título deixa de ser visto como útil ou adequado por segmentos do terceiro setor, perdendo atratividade e estimulando a criação de novos títulos. A terceira desvantagem da técnica de concessão de títulos é a margem de insegurança jurídica que essa técnica embute. Na medida em que a manutenção do título está condicionada geralmente ao cumprimento continuado de certas exigências, que são periodicamente aferidas pela autoridade competente, a entidade qualificada encontra-se periodicamente sujeita a eventual ocorrência de desvios no sistema de controle, com graves repercussões na sua condição jurídica enquanto sujeito de direitos e obrigações. Esse problema ou risco é maior na ausência de uma previsão normativa clara sobre o modo de processamento do controle administrativo exigido para a continuidade do título, máxime quando faltam normas que assegurem às entidades garantias contra o exercício abusivo ou persecutório da prerrogativa de controle pela autoridade. Algumas dessas desvantagens e perversões encontramos exemplarmente realizadas pelo título de utilidade pública.
3. CRISE DO TÍTULO DE UTILIDADE PÚBLICA
A discussão atual sobre novos títulos jurídicos para as entidades da sociedade civil de fins públicos é incompreensível sem a percepção da crise do título de utilidade pública, regido no plano federal ainda a partir fundamentalmente da Lei n. 91, de 28 de agosto de 1935, alterada em aspectos secundários ao longo do tempo, por um lado, e, por outro, da crise também do modo de atuação do Estado nos serviços sociais.
É sabido que o Estado atualmente não tem condições de monopolizar a prestação direta, executiva, do todos os serviços sociais de interesse coletivo. Estes podem ser executados por outros sujeitos, como associações de usuários, fundações ou organizações não governamentais sem fins lucrativos, sob acompanhamento e financiamento do Estado. Não prover diretamente o serviço não quer dizer tornar-se irresponsável perante essas necessidades sociais básicas. Não se trata de reduzir o Estado a mero ente regulador. O Estado apenas regulador é o Estado Mínimo, utopia conservadora insustentável ante as desigualdades das sociedades atuais. Não é este o Estado que se espera resulte das reformas em curso em todo o mundo. O Estado deve ser regulador e promotor dos serviços sociais básicos e econômicos estratégicos. Precisa garantir a prestação de serviços de saúde de forma universal, mas não deter o domínio de todos os hospitais necessários; precisa assegurar o oferecimento de ensino de qualidade aos cidadãos, mas não estatizar todo o ensino. Os serviços sociais devem ser fortemente financiados pelo Estado, assegurados de forma imparcial pelo Estado, mas não necessariamente realizados pelo aparato do Estado. Neste contexto, crescem de importância os entes "públicos não-estatais". (BRESSER PEREIRA, 1996: 285-87; 1997: 25-31; CUNIL GRAU, 1996: 126-137). Na verdade, não existe impedimento constitucional algum à assunção por particulares de tarefas e missões de interesse social em colaboração com a administração pública. Desde de que cumpridos requisitos de salvaguarda do interesse público, mais intensos e onerosos quanto mais ampla for a transferência de encargos e recursos, a cooperação é lícita e até mesmo estimulada pela Constituição da República (MODESTO, 1997: 204-07).
Essa parceria, no entanto, exige na relação do Estado com as organizações não governamentais a ocorrência em grau adequado de confiança e lealdade recíproca, bem como sincera e mútua concordância em torno de propósitos comuns.
São qualidades de relação que devem encontrar assento ou pelo menos ressonância na legislação. Mas não é o que ocorre. A legislação básica sobre utilidade pública no âmbito da União tem sido um dos principais problemas para o fortalecimento do terceiro setor no país. Não por ser detalhista ou limitadora. Mas exatamente pela razão contrária. A legislação básica na matéria, em especial no plano federal, é deficiente, lacônica, deixando uma enorme quantidade de temas sem cobertura legal e sob o comando da discrição de autoridades administrativas. Essa lacuna de cobertura facilitou a ocorrência de dois fenômenos conhecidos: (a) a proliferação de entidades inautênticas, quando não de fachada, vinculadas a interesses políticos menores, econômicos ou de grupos restritos; (b) o estímulo a processos de corrupção no setor público.
Este estado de coisas foi facilitado ao longo do tempo por inexistir na legislação federal a diferenciação clara entre entidades de favorecimento mútuo ou de fins mútuos (dirigidas a proporcionar benefícios a um círculo restrito ou limitado de sócios, inclusive mediante a cobrança de contribuições em dinheiro, facultativas ou compulsórias) e as entidades de fins comunitários, de fins públicos ou de solidariedade social (dirigidas a oferecer utilidades concretas ou benefícios especiais à comunidade de um modo geral, sem considerar vínculos jurídicos especiais, quase sempre de forma gratuita). Aos dois tipos de entidade a legislação vigente na matéria confere o mesmo título jurídico, o titulo de utilidade pública, autorizando e mesmo impondo um tratamento legal mais benéfico (renúncia fiscal, previsão de subvenções sociais, contratação direta etc. ), deixando ainda de prever qualquer forma mais efetiva de controle de resultados e satisfazendo-se basicamente com a apresentação periódica de documentos. Este caráter indiferenciado da referência às entidades do terceiro setor (qualificam-se do mesmo modo creches e clubes, escolas comunitárias e escolas privadas pagas etc.) e a debilidade do sistema de controle facilitou a ocorrência de abusos importantes e fomentou a desconfiança em atividades e relações de parceria em que confiança e probidade são valores fundamentais. Recorde-se o "escândalo do orçamento", esquema de malversação de recursos públicos, descoberto por acaso, consistente na utilização por um grupo razoável de parlamentares federais de entidades filantrópicas de fachada, de papel, que eram por eles criadas através de terceiros e por sua ação parlamentar recebiam vultosas somas de recursos públicos sem qualquer compromisso efetivo com atividades relevantes em matéria social ou em benefício da coletividade. É fortalecido, a partir desse episódio, o fraseado segundo o qual existem entidades filantrópicas e "pilantrópicas", neologismo empregado para referir as filantrópicas inautênticas (BARROSO LEITE, 1997: 43). Neste contexto, são criadas condições para uma situação de suspeição generalizada, de indefinição e perplexidade, indiscutivelmente negativa para o desenvolvimento entre os brasileiros de um voluntariado mais efetivo no país e, conseqüentemente, do próprio terceiro setor no Brasil. Por voluntariado ou serviço voluntário entende-se, conforme recente regulação, "a atividade não remunerada, prestada por pessoa física a entidade pública de qualquer natureza ou instituição privada de fins não lucrativos, que tenha objetivos cívicos, culturais, educacionais, científicos, recreativos ou de assistência social, inclusive, mutualidade" (Lei nº 9.608, de 18.02.98).
http://jus.uol.com.br/revista/texto/474/reforma-do-marco-legal-do-terceiro-setor-no-brasil